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quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Paloma - 3

O relógio marca 03h30min AM quando Paloma o olha pela quinta vez, suspira e volta a encarar o teto, sente que o cansaço a domina e deseja que o sono faça o mesmo, mas nada desse se manifestar, então sacode a cabeça piscando com força, suspira mais uma vez e volta a encarar o teto. Seus pensamentos são como uma fogueira acesa, uma chama em destaque no breu perturbando a serenidade da escuridão, alterando os versos da poesia. Os olhos fixos focam a lâmpada apagada, a mão apoiada no peito sobe e desce seguindo o ritmo do complicado exercício de respirar; no ouvido os fones tocam Kevin Garret desde as 02h00min AM, a música termina só para recomeçar; é a única no cartão de memória, é a única que quer ouvir hoje... então está tudo bem.  O tempo se arrasta devagar, talvez para castiga-la, talvez para fazê-la saborear cada momento, ainda não sabe, mas sorri mesmo assim. Está feliz e tranquila, já se acostumara, a insônia não a incomoda mais, não tanto quanto o amor que hora debocha dela e outra hora a faz sentir-se  plena... é estranho sentir-se frágil sendo tão forte, é estranho depender de alguém para sorrir, para sonhar, para respirar. Era a primeira vez que isso lhe acontecia, por isso não sabia exatamente como agir, mas seguia adiante sendo ela mesma, se deixando amar e ser amada. Era estranho. Era exatamente a tortura que todos descreviam... Era lindo! A m o r... disse num sussurro saboreando cada letra da palavra, fechou os olhos deliciada e sustentou o sorriso por um tempo antes de desfaze-lo devagar. Suspirou ao sentir o sono finalmente chegar, mas não tinha mais certeza se queria dormir, não precisava mais sonhar, não precisava de mais nada... Sentia-se em paz... era uma paz turbulenta, mas mesmo assim era paz! Suspira uma terceira vez. A mente divaga sem controle, o corpo pesa e relaxa, pisca e não consegue mais abrir os olhos, a mão escorrega para o abdômen separando o Ipod dos fones de ouvido, Kevin Garret então toca seu piano sem ser ouvido por ela, mas acorda Léo que abre os olhos sorrindo, estava sonhando com essa canção, então o deixa fazer sua serenata repetidamente... essa é a única música que quer ouvir hoje, então está tudo bem. Retira os fones de Paloma, e chega mais perto deitando em seu ombro, segura suavemente sua mão e suspira sentindo seu cheiro. Olha para o relógio e sorri novamente, fazia tempo que não dormia tanto, 3 horas inteiras é bastante pra quem tem insônia, então suspira ouvindo a música recomeçar, se sente feliz, a insônia não a incomodava mais, não tanto quanto o amor que a faz se sentir instável, e plena e boba. Era um tormento... Era uma tortura... Era lindo! A m o r... diz num sussurro enroscando a língua em cada letra da palavra. Ajeita-se mais em Paloma e espera pacientemente o sono vir novamente, mas não sabe mais se quer dormir, não precisava mais sonhar, não precisava de mais nada... Estava em paz! Uma paz turbulenta, mas mesmo assim era paz. Sorri uma terceira vez e suspira adormecendo. Paloma também suspira, mas nem se dá conta do ato. As duas dormem sem sonhar, enquanto Kevin Garret resmunga seus doces lamentos de amor. 

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Paloma - 2

No sofá Paloma observa a chuva. Seu cobertor escorregava do ombro pela terceira vez, e ela o recolocava no lugar pacientemente, segurava uma caneca com chá e saboreava cada gole ouvindo a melodia da chuva que batia insistentemente na janela; ás vezes desviava os olhos para olhar para Léo que lia absorta Hilda Hilst, gostava desses momentos em que faziam coisas diferentes e juntas, gostava mais ainda de ficar deitada em seu colo, era quente, aconchegante e por coincidência ou não ela se encaixava perfeitamente nele. Isso também acontecia dentro de seu abraço; não era muito apertado, mas não era solto demais, não era gelado, mas também não era abafado, não sobravam braços e tampouco lhe faltava... era cheiroso... era perfeito. Então passava parte de seu tempo livre ali, perdida em abraços, sorrisos, sonhos e desejos. É boa, a vida. É plena, com ela! Se um dia fora tão feliz não lembrava, tampouco lembrava se já tinha gostado tanto de alguém assim, mas achava isso normal porque quando estava com Léo não se lembrava de muita coisa, apenas se concentrava em seu sorriso de satisfação enquanto lia, seus olhos castanhos seguindo os versos dos poemas, a respiração calma e controlada, o coração que batia por ela e as mãos que distraídas lhe faziam ternas caricias. Passeavam desinteressadas e suaves em seu rosto, contornando as linhas de expressão, sobrancelhas, nariz, orelha e se demorando um pouco na boca antes de recomeçar, então Paloma suspirava de satisfação e voltava a olhar á chuva. Quando estava quase adormecendo, sentia Léo tirar a caneca de suas mãos quentes, inclinar-se e surpreende-la com um doce beijo nos lábios, recitava em tom de segredo um poema e colocava a mão no coração de Paloma para senti-lo disparar de amor e alegria, depois fechava o livro e a esperava adormecer sorrindo, olhava-a por um longo tempo e quando o cobertor escorregava de seu ombro o colocava pacientemente no lugar, saboreava cada gole do chá que sobrara na caneca, ouvindo a melodia de seu ressonar. Amava esses momentos em que faziam coisas diferentes e juntas e se fora tão feliz um dia, ou se já gostou tanto de alguém não se lembrava, mas considerava isso normal porque quando estava com Paloma não se lembrava de muita coisa. É boa, a vida... É plena, com ela.

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Paloma - 1

Paloma se agitava lentamente na cama; um sorriso enigmático pintava seus lábios, os olhos fechados prendiam os desejos da alma e a boca semiaberta prometia deixar escapar todos os segredos, mas nada revelava além de satisfação. Sonhava com pássaros, com voo livre e com flores... campos floridos e coloridos; flores perfumadas e exóticas, que saiam da terra, se escondiam na grama e enfeitavam seu corpo... ombro, seio, barriga, pernas. Vestia! Usava! Florescia. Flores... Tatuadas no corpo de Liz, desabrochando em cima da pele que se arrepiava com seu toque e a enternecia... Cobriam-nas de desejos, anseios, volúpia... Deixava Liz ainda mais linda. Deixava-a irresistível... Assim amanhecia Paloma, nos braços de Greg, amada, segura, desejada... Sonhando com flores. Sonhando com Liz!