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sexta-feira, 25 de março de 2016

Nos meus sonhos (por Cássia Tikusa)

Olhos;
espelhos teus,
senhores dos meus desejos,
seduzem meus pensamentos e
guiam meus sentidos para te encontrar,

me fazendo escrava dos teus beijos
me fazendo imaginar...

eu quero estar em seus braços;
acalentada em teus abraços, e
me ver em teus olhos,
sentir suas mãos percorrerem meu corpo.

e que nesse momento nada mais importe;
a noite,
o dia,
ou o tempo que o relógio roubasse...

tudo que quero é te olhar e dizer:
"acho que esperei toda minha vida para essa noite acontecer"


sexta-feira, 18 de março de 2016

Urgência (por Cássia Tikusa)

Queria te conhecer;
passar as horas conversando,
horas me perdendo e me achando,
descobrir o que estou procurando num abraço,
um olhar; um ato.
Numa noite um espetáculo,
nós dois num palco,
as cortinas abertas e os olhos fechados.
O silêncio.
O grito.
Holocausto!
Os pudores,
passado,
você; eu, e todo clamor testado.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Fim (por Avner Posner)

Hoje liberei para o jornal local Aquela nota sobre seu falecimento. Não quis alarde, mas quis deixar registrado, Em letras miúdas, no rodapé da página ímpar. Duas ou três folhas depois da capa. Em preto e branco mesmo. Em uma fonte que nem mesmo sei o nome Botei até meus óculos pra ler. Os escuros, pois mantenho o luto. E lá dizia... Meu amor hoje se foi. Não foi embora, pois o que vai as vezes volta. Não foi dormir, porque seu sono sempre foi leve. Não foi levado, afinal nunca tomaram o que era nosso. Não foi esquecido, já que nos somos pra sempre. Nunca foi, porque ainda é e talvez pra sempre será. Infelizmente, meu amor, felizmente meu amor Foi só pra ti, nunca foi de outro. Declaro aqui, e agora, que hoje eu enterro. Numa cova funda no meu peito. Com zelo, esmero e muitas saudades. Meu coração que leva seu nome. Te velo a cada suspiro. Te invoco a cada silêncio. Te enxergo, perfeitamente, na penumbra. E te sinto me fitando cada vez que eu sorrio. Hoje com a mão no peito fecho o caixão. Ora protegido, ora resguardado, ora escondido. Mas pra sempre seu. Nesta nota declaro a morte do que há em mim. Antes tarde do que nunca. Te amo, na presença, na ausência. No passado e no presente. E até mesmo quando eu minto dizendo ser o fim. Fim.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

A falência da poesia (por Ygor Pierre Piemonte Ditão)

A falência da poesia: 

O meu poema faliu e decretou-se insolvente.
Não tem créditos, nem liberdade de                  
                                        [imprensa. 
O meu verso é devedor e não tem espaço no mercado
É pobre, porque sua riqueza é democrática de verdade.

Minha poesia não vende livros, folhas e nem seguidores...
É solitária – como eu – por sonhar mundos melhores.

A minha poesia não rende por parecer-se Petrobrás
E sem assistência de sua miséria
Chora por escrever sobre liberdade.

A prosa, então, coitadinha,
Nem sabe sua identidade – semelhante a milhões de brasileiros.

Já não sei a cor da minha bandeira, do meu povo, do meu dinheiro e do pão!

Não tenho dólar pra divulgar poesias meritocráticas,
Nem euros para purgar a aristocracia,
Nem Libra para comprar uma oligarquia...

A falência do verso transcende a falência do coexistir.

Um dia eu fui ingênuo em defender,
Ora o comunismo, ora o capitalismo, ora em nada ter.

Um dia o meu verso falou de coisas que já não existem mais...
Mas hoje não defende nada!
Não há sistema político, econômico ou religioso que salve o homem de si.
A falência da poesia acompanhou a falência da humanidade.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Despejo (por Vera Lucia)

Hoje achei-me na rua,
Com velhas coisas, trapos juntados
Numa existência  qualquer.
Fui despejada da casa da poesia.
Achei-me na rua.
Vi de repente erguerem-se
Paredes de palavras aladas,
Protetoras do meu ser
De vestes coloridas e ricas.
De ecos maravilhosos parecidos com a infância.
Ergueram-se e me fizeram feliz e rica ali.
Escrevi  e vivi.
Exaltei-me.
E novamente encontro-me no desamparo
Da rua.
Vislumbro daqui a casa fechada.
Espero o dia em que novamente
A porta se abrirá para mim.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Dias (por Bruna Portugal)

Tem dias,
Que o silêncio é a melhor resposta para os nossos pensamentos.
Tem dias que queremos ficar só, 
Contemplando nossas lembranças e os belos momentos.
Tem dias que nada queremos além de nos mesmos,
Pois tudo se torna vago e inviável diante do nosso espelho.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Monólogo do ex-poeta (por Ygor Pierre Piemonte Ditão)

Quente tarde de Setembro nesta metrópole comedora de gentes que é São Paulo. Tornei-me mais uma das milhões de quimeras que coexistem comigo. Sou um poema totalmente diferente dos demais. Sou uma poesia não escrita e sem intérpretes. Sou um fragmento do imaginário que se concretiza na plenitude das alucinações. Fui subvertendo-me integralmente e afastando de tudo para me encontrar. Na busca de me entorpecer embebi toda a minha alma nas blandícias seculares a fim de compreender as buscas inauditas dos homens. Queria ser como os demais. Queria, eu juro, ser como o bonde de pueris ignóbeis que nem amadureceram, mas já se embalsamam em uísques baratos, cigarros falsificados e vinhos de boteco. Tentei de maneira cega não ver a loucura sórdida desse mundo sem pé e sem cabeça: maldição da minha terra circular. Nunca sei onde começa ou onde há de terminar. Todavia, afastei-me de todos os meus sonhos e como se bebesse com Descartes neguei todas as minhas verdades (fé, inclusive) para experimentar todos os mandamentos imperiais dos meus iguais (que conseguiam ser mais diferentes que qualquer outra espécie). Deitei-me com esse grupo ensurdecedor de ensandecidos nos fatídicos discursos panegíricos insípidos e não consegui de maneira alguma ver algo que me preenchesse. Assisti de perto (e participei de algumas) festas de embrutecimento da alma e minha existência foi se diminuindo tanto que deixei de existir. Sim, isso é possível. A inexistência ocorre quando persisto sendo como não sou. Bebi noites atrás de noites e despojei-me de todos os meus limites morais, éticos e alguns legais. Recordo-me de madrugadas de insônia e do dedilhar de um piano velho. Era mais uma noite paulistana. E eu: uma poesia repetida. Queria ser um verso de Bukowski, mas nunca fui. Após tantos séculos preso na cadeia de buscas inócuas decidi buscar a mim mesmo. Eu era simplesmente aquilo que neguei. Fui me identificando naquilo que ninguém quis ser. Era sou a poesia não escrita no banco do velho jardim. Fui afastando os espaços e aproximando as distâncias até sentir dentro de mim o toque repentino da fênix, o galope irrefreável do velho pegasus, a mensagem secreta de Hermes, as setas clandestinas do Cupido. É estranho. Quando nas balburdias das aventuras juvenis deitei-me com a multidão de meus pecados a fim de execrar toda a ojeriza que eu tinha no homem, eu me encontrei. O caminho prosseguiu calmo e eu já não tinha mais nada a buscar. A vida me dera tudo que um homem podia esperar. Quase tudo, na verdade. Passei dos versos repetidos à poesia inédita na quente noite de nosso encontro. Quando te busquei nas insanas noites de alucinação, quando de procurei nos botecos acinzentados dessa prostituta urbana ou quando te esperei nas sarjetas entupidas de destilados... Você não me apareceu. Contudo, quando meus nortes se direcionaram as buscas totalmente diversas e quando eu já havia encontrado em mim mesmo razões totalmente alienígenas de existência, você me tocou os olhos e me aveludou o espírito. Hoje, ao olhar pela janela, vou contemplando a cidade de uma maneira diferente, pois ela me deu você quando dela eu me enfurecia. Eis, portanto, fascinante ironia: São Paulo foi minha primeira professora do bem cego, ou seja, do bem praticado para aquele que te repugna. Aprendi contigo que o rebelde tempo é prudente professor, só me concede aquilo que quero quando tenho a maturidade que preciso. Hoje já não posso me chamar poeta. Já não tenho os dramas dos demais, porque troquei a montanha-russa de emoções pela serenidade da prosa que me deste com o teu olhar...