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terça-feira, 30 de setembro de 2014

Despejo (por Vera Lucia)

Hoje achei-me na rua,
Com velhas coisas, trapos juntados
Numa existência  qualquer.
Fui despejada da casa da poesia.
Achei-me na rua.
Vi de repente erguerem-se
Paredes de palavras aladas,
Protetoras do meu ser
De vestes coloridas e ricas.
De ecos maravilhosos parecidos com a infância.
Ergueram-se e me fizeram feliz e rica ali.
Escrevi  e vivi.
Exaltei-me.
E novamente encontro-me no desamparo
Da rua.
Vislumbro daqui a casa fechada.
Espero o dia em que novamente
A porta se abrirá para mim.

Verso - 14

Para onde será que vão os beijos que jogo no ar?

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Nanoconto - 08

Dormia a sonhar com sereias, e acordava preso em sua própria rede.

sábado, 27 de setembro de 2014

Verso - 13

Amar,
É uma forma desajeitada
De sermos quem no fundo desejamos ser,
De olharmos com inocência para o outro
E de nos espalharmos sem culpa
pelo mundo!

You are my girl

O nascer do Sol só fazia aumentar sua aflição, passara dois anos sonhando com esse momento e agora que estava por acontecer não sabia como fazer, pensou em agir naturalmente mas estava desesperada demais para tal coisa; afinal de contas iria revê-la.  Antes de sair do carro olhou-se mais uma vez no espelho alisando repetidamente o comprido cabelo negro com a palma da mão; retocou a base no rosto branco, conferiu o brinco, repintou o lápis nos olhos e ajeitou o relógio que ela lhe dera de presente em seu 21º aniversario. Entrou no prédio onde ela morava, atravessou o saguão, enviou-lhe um sms para avisar que estava subindo e roboticamente chamou o elevador; esperava em frente á porta do elevador batendo o pé direito no chão num ritmo imaginário, enquanto os dedos da mão esquerda tamborilavam em seu quadril seguindo o mesmo ritmo, de vez em quando ajeitava o cabelo atrás das orelhas sem se dar conta do próprio ato. Entrou no elevador perdida em si mesma.
Sentia que sua impaciência aumentava de forma incontrolável, tinha a impressão de que demoraria uma eternidade para chegar ao 15º andar, suas mãos suavam, suas pernas tremiam, seu peito apertava, os dentes roíam violentamente as unhas, o ar lhe faltava e seu coração batia tão forte que lhe doía o peito; todas as lembranças que guardara das duas juntas se remexiam em sua mente e a deixava desnorteada. Seguia nessa crise de ansiedade crescente quando o elevador teve uma falha técnica; estava tão envolta em seus sentimentos que demorou um tempo para perceber que ficara presa exatamente no 15° andar. Fitou firmemente o painel de vidro e esperou que a porta abrisse, mas nada aconteceu; o elevador permaneceu imóvel, estático como seu amor por ela e estagnado como sua doce ilusão. Uma gota de suor passeou por sua espinha vertical, tremeu no momento em que seu deu conta de sua triste situação, - Estou presa na droga do elevador., constatou em voz alta e com olhos verdes arregalados.
Duas horas depois respirava com dificuldades. Estava sufocando; a caixa metálica que media L.1100 mm x P.1400 mm a mantinha encarcerada e longe de seu único amor, esperara muito para revê-la e agora mesmo perto parecia imensamente longe. Sentiu-se idiota ao lembrar que se separara dela quando descobriu que era uma porn star; não podia dividi-la mesmo sabendo que não se deitava com outros por amor; abandonou-a sem prévio aviso, e jamais pôde esquecê-la. Encostou-se na parede procurando apoio quando o painel, o corrimão, o espelho e as portas começaram a girar juntos, transformando-se num carrossel infernal, apoiou as mãos nos joelhos, o lugar estava cada vez mais quente e as lembranças se debatiam nas paredes de sua mente. Lembrava-se de ouvir mensagens de amor deixadas diariamente na caixa postal, e pedidos de desculpas desesperados; eram sinceros e carregados de saudade e pesar, doía-lhe ouvir a voz tão chorosa, mas era orgulhosa demais para admitir que também a queria de volta. Dois meses depois as declarações e as desculpas cessaram, e para seu total desespero ela sumira de vez; procurou-a por dois anos se sucesso, e já estava decidida a desistir quando finalmente conseguiu seu numero de celular; ficou surpresa em perceber que ela não lhe guardara magoas, então marcou de ir em seu apartamento na manhã seguinte, e desde então não pôde mais se concentrar, comer ou dormir. Ainda estava apaixonada.

O suor e as lagrimas escorriam-lhe pela face borrando a maquilagem feita com esmero, o ar foi tornando-se cada vez mais difícil de consumir e sua visão cada vez mais turva, ajoelhou-se levando uma mão ao peito e apoiando a outra no chão, - Falta pouco para abraça-la., dizia a si mesma repetidamente tentando manter a calma; de repente a doce voz de Christine soou do outro lado fazendo com que  a ansiedade a invadisse por completo; deitou virada para a porta sem poder mais sustentar o peso do próprio corpo, o peito doía por conta da ausência de ar, engolia em seco e chorava com a intensidade que lhe era permitida; antes de perder completamente a consciência ouviu a porta do elevador abrir, e um segundo depois pôde assistir Christine gritar em pânico ao vê-la caída ; com o que lhe restava de energia construiu um cansado sorriso e satisfeita desfaleceu sem urgência.

Quando finalmente abriu os olhos, estava no quarto e na cama de Cristine; assustada, tentou-se levantar mas foi impedida pelo cansaço, então virou para a esquerda e a viu sentada a seu lado; o rosto pálido, sardento e carregado de preocupação estava próximo o suficiente para um beijo doce e desavisado; estar assim tão perto aumentava a necessidade que vinha sentindo dela desde as 03h00min AM, diminuía sua ansiedade descontrolada e aplacava o louco palpitar de seu coração. Podia sentir seu hálito de chiclete de menta, seu cheiro natural, curtir a pele macia enquanto ela segurava sua mão e se espelhar em seus olhos castanho claro. Ela era sublime!

Respirou fundo e contemplou-a pacientemente como se a visse pela primeira vez, se prendeu em detalhes objetivando gravar na retina cada pedaço de seu ser, viu-a suspirar de prazer inegável quando rapidamente lhe contornou os lábios com dedos impacientes; e quase enlouqueceu de satisfação quando em seguida ela lhe tracejou cada linha do rosto com o dedo indicador. Sem poder se conter beijou-a delicadamente no rosto e enroscou as mãos tremulas em seu cabelo ruivo, em seguida abraçou-a docemente e quase enlouqueceu de tanta saudade; suas aflições e lembranças às abandonaram, permitindo que novas memorias fossem construídas a partir de ali. - Eu te amo! A frase dita quase ao mesmo tempo pelas duas ecoou por todo o quarto, se espalhando no ar e rebatendo nas paredes preenchendo todo o local em segundos; a magoa, o ressentimento, a desconfiança, a frustração e a decepção foram esquecidos no momento em que elas se beijaram; sem culpa sanaram a saudade, e entre olhares e abraços dormiram satisfeitas.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Verso - 12

Amo suas inebriantes palavras de amor,
Que atravessam o espaço,
Desaceleram o tempo
E me alcançam,
No segundo em que começo a pensar em você.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Contrato

Diante da folha em branco, a escritora se reinventava compulsivamente para criar uma ultima estória, a cada palavra ela se sentia mais motivada e a cada frase construída experimentava uma sensação diferente.  Já era madrugada, e apesar de estar exausta mantinha o sorriso no rosto, tinha urgência em terminar essa serie e por isso escrevia febrilmente. De vez em quando interrompia a escrita e se flagrava admirando-a distraidamente, ela era uma dessas pessoas que nada tinha de especial, falava com um jeito manhoso mas não era carinhosa, gostava de ter propriedade em assuntos que nem ao menos conhecia, às vezes estreava o seu mau-humor como quem estreia um vestido novo e tinha o habito detestável de mascar chicletes e andar descalça. Enquanto a olhava, reanalisava os motivos que a levaram a escolhê-la, mas por mais que tentasse não podia entendê-los; só sabia que a escolhera e que por mais que ela a irritasse estava feliz com sua escolha.
Deitada no sofá podia sentir o olhar que lhe pesava em cima, era modelo profissional e ás vezes prostituta de luxo tinha cinco anos, e nesse interim recebera inúmeros convites, alguns com intenções perigosas e outros definitivamente estranhos mas nenhum como esse. A escritora que agora a observava era sem duvida a pessoa mais intrigante e adorável que já conhecera; abordara-a em seu ultimo desfile e pedira que se hospedasse quinze dias em sua residência por uma determinada quantia, a principio pensou em recusar mas a curiosidade lhe pegou desprevenida então aceitou; afinal de contas não é todo dia que convidam uma prostituta de luxo para ser objeto de estudo.
Na manhã seguinte chegou de malas e instalou suas manhas, mau-humor, tagarelice e manias detestáveis, tirando da escritora a paz a qual estava tão acostumada; acordavam cedo e trabalhavam a serie, uma escrevia enquanto a outra contava detalhes necessários e desnecessários de sua vida pessoal. Quando se sentia entediada, a modelo desfilava descalça por toda a casa, cantando, xeretando, ouvindo, interferindo e mascando trident global connections deitada no sofá; às vezes num surto reclamava sobre sua vida e chorava amargamente suas escolhas, nesses momentos a escritora se aproximava silenciosamente e a envolvia num forte abraço. Deixavam-se ficar assim, abraçadas com olhos fechados até que os cheiros trocassem de corpos.  
Havia momentos em que apenas conversavam trocando confidencias, contavam sobre família, amigos, antigos relacionamentos, comidas preferidas e decepções amorosas; em geral eram parecidas e ao mesmo tempo antagônicas, uma mistura que contrariando as expectativas pessoais dera certo. Às vezes a modelo lia os contos criados sobre si e ficava surpresa com a doçura usada para relatar sua conturbada vida, outras vezes era a escritora quem se surpreendia com a quantidade de problemas que essa carregava sozinha. Foram trocando experiências e manias, e permitindo que o tempo às carregassem despercebidas, foram se curtindo, se permitindo e se desesperando com a ideia da despedida.
No decimo quarto dia de sua estadia a modelo redefiniu o conceito de insuportável, não quis comer ou beber, mascar ou xeretar, e limitava-se em responder com monossílabos a qualquer tentativa de dialogo; passara o dia todo de pijama no sofá olhando a escritora trabalhar incansavelmente. Ao cair da noite foi convencida a comer um pedaço de pizza e a beber um pouco de agua, e ao terminar reassumiu seu posto no sofá recusando-se a dormir na cama. Em sua mesa a escritora tentava entende-la sem sucesso, decepcionada, investiu compulsivamente em seu ultimo texto parando apenas para admirar distraidamente sua beleza. No fundo desejava que ela acordasse com melhor humor, queria servir-se de seu abraço mesmo que fosse o ultimo; mesmo não sabendo lidar com despedidas.
No dia seguinte as duas se trataram como completas estranhas, uma angustia muda passeava entre elas feito visita indesejada; evitaram o abraço de adeus assim como qualquer coisa que o tornasse concreto, então encarceraram os sentimentos e encerraram sua estória com um aperto de mão. Mascando chiclete a modelo entra em seu carro sem olhar pra traz, não queria expor seus sentimentos para que esses não fossem escritos; ligou o carro devagar e finalmente olhou para ela usando o espelho retrovisor interno mas só viu a porta aberta e vazia, deu a partida e chorou como quem perde alguém importante. Nunca fora tão difícil deixar um cliente.           Dentro da casa o tic-tac do relógio a incomodava em demasia, lembrava o irritante barulho que ela fazia enquanto mascava chicletes, olhou para o sofá vazio e foi invadida por uma enorme tristeza; sentou-se na cadeira mais próxima olhando de um lado a outro estranhando a solidão. O silencio na casa era esmagador. Aos poucos o ar foi lhe faltando até tornar-se quase impossível respirar, seus ombros caíram devagar e as lagrimas vieram involuntariamente rolando por seu rosto e molhando seus pés descalços.
Apoiada nos joelhos ela se desesperava com a verdade que lhe invadia, - Eu a amo, disse se assustando com a própria voz; sentia falta dela de um jeito quase impossível de explicar, queria tanto ter lhe dado o abraço de adeus e pedir que ela ficasse, mas não a abraçara e não pedira e agora tudo que sobrara era seu cheiro sumindo no ar e detalhes escritos a mão. Sua mente estava tão bagunçada quanto uma pagina de rascunhos, as lembranças e os sentimentos se fundiam formando um turbilhão dentro dela, e o desconsolo a abraçava forte tentando superar o amor; aos poucos se deixou afundar na cadeira e ficou imóvel como um livro abandonado.   – Também te amo!, ouviu a voz que invadia a sala e não pode conter a felicidade quando a viu parada na soleira da porta sorrindo amavelmente, levantou-se e atravessou o cômodo atônita; sentiu-se insegura enquanto caminhava mas enroscou-se em seu abraço disposta a consumi-la agora que sentia o amor de que tanto escrevera; queria estreá-lo, prova-lo e curti-lo. Queria tudo com ela!